LA UTOPÍA COMO RAÍZ DE AMÉRICA LATINA | Alejandro Seta
Artículo

LA UTOPÍA COMO RAÍZ DE AMÉRICA LATINA

19 de noviembre de 2025 Pedro Machado Mastrobuono pedro.mastrobuono@memorial.org.br

Hemos recibido de nuestro amigo Fabio do Vale, de Brasil, las reflexiones de un gran autor del país hermano PEDRO MACHADO MASTROBUONO. Lo hacemos en ambas lenguas, para la interacción de hablantes de toda América. Compartimos la presentación de Pedro Machado: Presidente da Fundação Memorial da América Latina Pós-doutor em Antropologia Social; agraciado pelo Senado Federal com a Comenda Câmara Cascudo por sua trajetória na defesa do patrimônio cultural brasileiro. Lo acompaña una nota de opinión de la poeta, ensayista y crítica literaria Ana María Bernardelli.

LA UTOPÍA COMO RAÍZ DE AMÉRICA LATINA

Há quem diga que a utopia é o avesso da realidade, mas na América Latina ela é o próprio tecido da sobrevivência. Desde os sonhos libertários de Simón Bolívar até o humanismo pedagógico de Paulo Freire, passando pelas cores insurgentes de Frida Kahlo, as palavras oceânicas de Neruda e o gesto sacrificial de Che Guevara, a utopia não foi aqui um devaneio, foi um método de resistência.

No continente onde a dor se fez memória e a esperança se fez idioma, a utopia tornou-se forma de vida. Darcy Ribeiro compreendeu isso quando dizia que o Brasil (e por extensão a América Latina) ainda estava por ser inventado. Essa invenção permanente, entre o real e o possível, é o que moveu nossos povos na construção de uma identidade que não se submete à lógica fria do mercado global, mas insiste em afirmar a dignidade humana como princípio civilizatório.

Hoje, diante do pragmatismo tecnocrático e do esvaziamento das utopias, é preciso reafirmar o papel simbólico e político da imaginação. A utopia latino-americana não é um horizonte inatingível, é um compromisso diário com o inacabado, uma ética do porvir. É o que faz da cultura o último bastião de resistência e do Memorial da América Latina um espaço vivo de memória e de futuro, onde o sonho não é fuga, mas método.

Darcy Ribeiro também nos alertava para um drama profundo: o homem sul-americano é, muitas vezes, um ser desenraizado. Perdeu as referências ancestrais dos povos que lhe deram forma, e ainda não consolidou plenamente suas raízes no solo novo que habita. É um homem em trânsito entre o passado e o porvir, entre o local e o universal, entre a memória fragmentada e o desejo de totalidade. Por isso Darcy temia que a identidade latino-americana se tornasse uma identidade pasteurizada, um espelho diluído do mundo industrial, incapaz de reconhecer sua própria pluralidade.

Mas se há uma força que impede essa pasteurização, ela está na própria alma alegre do povo latino-americano. Nossos povos são feitos de festa, de riso, de dança e de fé. São culturas que celebram a vida, que transformam o cotidiano em Carnaval e o trabalho em convivência. A mesa é um altar coletivo, onde a comida se torna ponte entre gerações, e a música é uma linguagem que fala mais do que as palavras. Na América Latina não há espaço para o medo do estrangeiro nem para a desconfiança do diferente. Aqui, o outro é acolhido, não apenas tolerado.

Enquanto isso, a Europa (apesar da existência formal de um mercado comum criado para fins econômicos e laborais) ainda carrega marcas profundas da Idade Média. É uma colcha de retalhos onde as diferenças são apenas suportadas, raramente celebradas. São resquícios de um tempo em que as estradas eram perigosas e a vida, confinada aos feudos, alimentava o medo do que vinha de fora. Ainda hoje, no interior da Itália e da França, é comum ouvir que o compatriota é apenas aquele que consegue escutar, da própria casa, o sino da igreja local. Aquele que não o ouve já é estrangeiro. Na Sicília, muitas casas foram erguidas de costas para o mar, porque do mar só vinham invasões, luto e desconfiança. São cicatrizes antigas, que revelam como a xenofobia se tornou parte da paisagem emocional europeia.

Enquanto o velho continente e boa parte do mundo se caracterizam por um pragmatismo frio e por uma intolerância travestida de civilidade, o latino-americano se distingue pela pluralidade e pela alegria do convívio. Aqui, o diverso é sinônimo de riqueza, e a diferença, de completude. A hospitalidade é nossa forma de sabedoria e o encontro, nossa maneira de existir. É essa exuberância cultural e afetiva que faz da utopia latino-americana uma força viva, concreta e insurgente.

A utopia, nesse sentido, é o remédio contra a anestesia da homogeneização cultural. Ela restitui ao homem latino-americano o direito de ser múltiplo, de habitar simultaneamente o tempo do mito e o tempo da história. O que Bolívar sonhou nas montanhas, o que Neruda escreveu diante do Pacífico e o que Freire ensinou nas salas de alfabetização, tudo isso converge para um mesmo princípio: a libertação como projeto de humanidade. É na imaginação do futuro que reencontramos nossas origens, e é pela cultura que nos tornamos novamente inteiros.

A antropologia nos ensina que os povos não sobrevivem apenas pelo que produzem, mas pelo que sonham. A América Latina sobrevive porque insiste em sonhar, mesmo quando tudo parece desabar. A utopia aqui não é ingenuidade, é coragem. É o gesto de seguir criando, educando e amando apesar da adversidade. É o território simbólico onde os fragmentos se reencontram e o homem mestiço reconhece, enfim, que suas raízes não são perdidas, mas múltiplas.

É por isso que, no Memorial da América Latina, celebrar a utopia é celebrar a própria condição humana. É afirmar que o futuro não se fabrica apenas com tecnologia, mas com memória e imaginação. A utopia é a chama que impede a América de ser apenas um mercado e a devolve à sua vocação original: ser um continente de humanidade.

OPINIÃO

Tradição humanista latino-americana

Por ANA MARÍA BERARDELLI, poeta, ensaísta e crítica literária

 

O texto A utopia como raiz da América Latina, de Pedro Machado Mastrobuono,  situa-se num horizonte intelectual que remonta à tradição humanista latino-americana inaugurada no século XIX por Simón Bolívar e outros pensadores da emancipação continental. Essa tradição não é apenas política — é também mítica e cultural: vê na América Latina não um subproduto da Europa, mas uma civilização em formação, “ainda por ser inventada”, como dizia Darcy Ribeiro.

Ao evocar nomes como Bolívar, Freire, Frida, Neruda e Che, o autor não os trata como ícones isolados, mas como encarnações de uma utopia coletiva: cada qual, em seu campo (política, educação, arte, poesia, revolução), fez da esperança um método. Esse é um ponto historicamente verossímil — a utopia, na América Latina, de fato, nunca foi mera quimera, mas instrumento de transformação social, desde as independências até as lutas pedagógicas e culturais do século 20.

A ideia de que “a utopia é o próprio tecido da sobrevivência” é altamente apropriada ao nosso continente. Diferente da Europa, onde o pensamento utópico foi frequentemente teórico, na América Latina ele se tornou práxis — incorporado à vida cotidiana, à pedagogia, à fé popular e à política libertária. Essa leitura dialoga com: Ernesto Sábato, que via na América Latina a última guardiã da sensibilidade humana frente à desumanização tecnológica; Eduardo Galeano, em O livro dos abraços, para quem a utopia serve “para caminhar”; Paulo Freire, que chamava a esperança de “ato político”. Portanto, o texto se ancora numa tradição histórica coerente e intelectualmente legítima: a de que o sonho, no continente, é forma de ação — e não fuga da realidade.

A denúncia do “pragmatismo tecnocrático” e do “esvaziamento das utopias” é uma crítica contemporânea pertinente. Desde o fim da Guerra Fria e a ascensão do neoliberalismo, a América Latina tem sido pressionada a alinhar-se a modelos de racionalidade econômica global, o que ameaça sua diversidade cultural e simbólica.

A advertência de Darcy Ribeiro sobre o risco de o homem latino-americano tornar-se “desenraizado” reflete um dilema real: a perda de referenciais identitários frente à globalização. Seu texto, ao retomá-lo, propõe uma revalorização da imaginação como categoria política, o que é tanto histórico quanto atual — basta lembrar as recentes mobilizações culturais, indígenas e ambientais no continente.

A seção que contrapõe a abertura latino-americana à xenofobia europeia utiliza uma estratégia de contraste que, embora estilisticamente eficaz, é metafórica mais do que sociológica. É verossímil no plano simbólico — a hospitalidade, o sincretismo e o “espírito festivo” são traços marcantes de nossas culturas —, mas corre o risco de incorrer numa idealização benevolente do continente. A América Latina também abriga violências, preconceitos internos, exclusões e desigualdades históricas profundas.

No entanto, o autor não nega essas feridas — apenas escolhe exaltar o que nelas resiste como força vital. A idealização é, aqui, estratégia retórica, não ingenuidade: o autor cria um contraponto poético para reafirmar o valor humanista latino-americano frente ao esvaziamento global. A passagem final — “a utopia é a chama que impede a América de ser apenas um mercado” — sintetiza uma tese historicamente lúcida: a cultura latino-americana (arte, literatura, religiosidade, oralidade) tem sido o verdadeiro espaço de resistência civilizatória.

Mesmo quando a política fracassa, a arte e o imaginário mantêm viva a ideia de humanidade. Essa leitura encontra respaldo nas obras de: Octavio Paz, em O Labirinto da Solidão, ao ver o México como país que “dança diante do abismo”; Mario Vargas Llosa, que, mesmo crítico das utopias políticas, reconhece na ficção latino-americana o poder de inventar mundos possíveis; Darcy Ribeiro, para quem a América Latina é “a nova Roma do mundo mestiço”.

Em síntese, o texto é intelectualmente apropriado ao contexto latino-americano porque: reconstrói um arco histórico coerente — da libertação política às resistências culturais contemporâneas. Reivindica a imaginação como ferramenta política, em consonância com as pedagogias e filosofias do continente. Evita o eurocentrismo, propondo uma inversão de perspectiva: é a América Latina, não a Europa, que guarda o sentido humano da civilização. Adota uma linguagem simbólica e ensaística, que é, em si, parte da tradição estética latino-americana. Se há alguma fragilidade, ela está apenas na idealização benevolente do “povo alegre e plural”, o que deve ser lido não como erro factual, mas como licença poética dentro de um texto que assume o lugar da utopia como método e metáfora.

O texto conjuga lucidez crítica e lirismo histórico — pensa o continente com o coração e sente-o com o intelecto. É uma meditação civilizatória que reencanta a ideia de América, devolvendo-lhe aquilo que a modernidade tentou extirpar: a crença de que sonhar é um ato político.

O presente arquivo constitui uma parceria de caráter analítico e reflexivo entre o texto base de Pedro M. Mastrobuono e a leitura crítica de Ana Maria Bernardelli. A proposta nasce do reconhecimento de que, enquanto latino-americanos, partilhamos questões históricas, culturais e éticas comuns, que demandam contínua problematização. Assim, o documento configura-se como um exercício de interlocução intelectual, no qual a análise não se limita à exegese do texto, mas se expande em diálogo interpretativo sobre temas que atravessam o pensamento latino-americano contemporâneo. Trata-se, portanto, de um esforço conjunto de pensar e repensar a condição latino-americana, reafirmando a relevância da crítica como espaço de construção de sentido e de integração cultural.

LENGUA ESPAÑOLA

Traducción: Prof. Dr. Fábio do Vale (Brasil)

La utopía como raíz de América Latina

Hay quien dice que la utopía es lo contrario de la realidad, pero en América Latina es el tejido mismo de la supervivencia. Desde los sueños libertarios de Simón Bolívar hasta el humanismo pedagógico de Paulo Freire, pasando por los colores insurgentes de Frida Kahlo, las palabras oceánicas de Neruda y el gesto sacrificial del Che Guevara, la utopía no fue aquí una ensoñación, fue un método de resistencia.

En el continente donde el dolor se convirtió en memoria y la esperanza en idioma, la utopía se convirtió en forma de vida. Darcy Ribeiro lo comprendió cuando dijo que Brasil (y, por extensión, América Latina) aún estaba por inventarse. Esa invención permanente, entre lo real y lo posible, es lo que ha impulsado a nuestros pueblos a construir una identidad que no se somete a la fría lógica del mercado global, sino que insiste en afirmar la dignidad humana como principio civilizatorio.

Hoy, ante el pragmatismo tecnocrático y el vaciamiento de las utopías, es necesario reafirmar el papel simbólico y político de la imaginación. La utopía latinoamericana no es un horizonte inalcanzable, es un compromiso diario con lo inacabado, una ética del porvenir. Es lo que hace de la cultura el último bastión de resistencia y del Memorial de América Latina un espacio vivo de memoria y de futuro, donde el sueño no es una huida, sino un método.

Darcy Ribeiro también nos alertaba sobre un drama profundo: el hombre sudamericano es, a menudo, un ser desarraigado. Ha perdido las referencias ancestrales de los pueblos que le dieron forma y aún no ha consolidado plenamente sus raíces en el nuevo suelo que habita. Es un hombre en tránsito entre el pasado y el futuro, entre lo local y lo universal, entre la memoria fragmentada y el deseo de totalidad. Por eso Darcy temía que la identidad latinoamericana se convirtiera en una identidad pasteurizada, un espejo diluido del mundo industrial, incapaz de reconocer su propia pluralidad.

Pero si hay una fuerza que impide esa pasteurización, está en el alma alegre del pueblo latinoamericano. Nuestros pueblos están hechos de fiesta, risas, baile y fe. Son culturas que celebran la vida, que transforman lo cotidiano en carnaval y el trabajo en convivencia. La mesa es un altar colectivo, donde la comida se convierte en un puente entre generaciones, y la música es un lenguaje que habla más que las palabras. En América Latina no hay lugar para el miedo al extranjero ni para la desconfianza hacia lo diferente. Aquí, al otro se le acoge, no solo se le tolera.

Mientras tanto, Europa (a pesar de la existencia formal de un mercado común creado con fines económicos y laborales) todavía lleva profundas marcas de la Edad Media. Es un mosaico donde las diferencias solo se soportan, rara vez se celebran. Son vestigios de una época en la que las carreteras eran peligrosas y la vida, confinada a los feudos, alimentaba el miedo a lo que venía de fuera. Aún hoy, en el interior de Italia y Francia, es común escuchar que el compatriota es solo aquel que puede escuchar, desde su propia casa, la campana de la iglesia local. El que no la oye ya es extranjero. En Sicilia, muchas casas se construyeron de espaldas al mar, porque del mar solo llegaban invasiones, luto y desconfianza. Son cicatrices antiguas que revelan cómo la xenofobia se ha convertido en parte del paisaje emocional europeo.

Mientras que el viejo continente y gran parte del mundo se caracterizan por un pragmatismo frío y una intolerancia disfrazada de civilidad, los latinoamericanos se distinguen por su pluralidad y alegría de convivencia. Aquí, la diversidad es sinónimo de riqueza, y la diferencia, de plenitud. La hospitalidad es nuestra forma de sabiduría y el encuentro, nuestra manera de existir. Es esta exuberancia cultural y afectiva la que hace de la utopía latinoamericana una fuerza viva, concreta e insurgente.

La utopía, en este sentido, es el remedio contra la anestesia de la homogeneización cultural. Devuelve al hombre latinoamericano el derecho a ser múltiple, a habitar simultáneamente el tiempo del mito y el tiempo de la historia. Lo que Bolívar soñó en las montañas, lo que Neruda escribió frente al Pacífico y lo que Freire enseñó en las aulas de alfabetización, todo ello converge en un mismo principio: la liberación como proyecto de humanidad. Es en la imaginación del futuro donde reencontramos nuestros orígenes, y es a través de la cultura donde volvemos a ser completos.

La antropología nos enseña que los pueblos no sobreviven solo por lo que producen, sino por lo que sueñan. América Latina sobrevive porque insiste en soñar, incluso cuando todo parece derrumbarse. La utopía aquí no es ingenuidad, es valentía. Es el gesto de seguir creando, educando y amando a pesar de la adversidad. Es el territorio simbólico donde los fragmentos se reencuentran y el hombre mestizo reconoce, por fin, que sus raíces no están perdidas, sino que son múltiples.

Por eso, en el Memorial de América Latina, celebrar la utopía es celebrar la propia condición humana. Es afirmar que el futuro no se fabrica solo con tecnología, sino con memoria e imaginación. La utopía es la llama que impide que América sea solo un mercado y la devuelve a su vocación original: ser un continente de humanidad.

OPINIÓN

Tradición humanista latinoamericana

Por ANA MARÍA BERARDELLI, poeta, ensayista y crítica literária

El texto La utopía como raíz de América Latina, de Pedro Machado Mastrobuono, se sitúa en un horizonte intelectual que se remonta a la tradición humanista latinoamericana inaugurada en el siglo XIX por Simón Bolívar y otros pensadores de la emancipación continental. Esta tradición no es solo política, sino también mítica y cultural: ve en América Latina no un subproducto de Europa, sino una civilización en formación, «aún por inventar», como decía Darcy Ribeiro.

Al evocar nombres como Bolívar, Freire, Frida, Neruda y el Che, el autor no los trata como iconos aislados, sino como encarnaciones de una utopía colectiva: cada uno, en su campo (política, educación, arte, poesía, revolución), hizo de la esperanza un método. Este es un punto históricamente verosímil: la utopía, en América Latina, de hecho, nunca fue una mera quimera, sino un instrumento de transformación social, desde las independencias hasta las luchas pedagógicas y culturales del siglo XX.

La idea de que «la utopía es el tejido mismo de la supervivencia» es muy apropiada para nuestro continente. A diferencia de Europa, donde el pensamiento utópico fue a menudo teórico, en América Latina se convirtió en praxis, incorporándose a la vida cotidiana, la pedagogía, la fe popular y la política libertaria. Esta lectura dialoga con: Ernesto Sábato, que veía en América Latina la última guardiana de la sensibilidad humana frente a la deshumanización tecnológica; Eduardo Galeano, en El libro de los abrazos, para quien la utopía sirve «para caminar»; Paulo Freire, que llamaba a la esperanza «acto político». Por lo tanto, el texto se basa en una tradición histórica coherente e intelectualmente legítima: la de que el sueño, en el continente, es una forma de acción, y no una huida de la realidad.

La denuncia del «pragmatismo tecnocrático» y del «vaciamiento de las utopías» es una crítica contemporánea pertinente. Desde el fin de la Guerra Fría y el auge del neoliberalismo, América Latina ha sido presionada para alinearse con modelos de racionalidad económica global, lo que amenaza su diversidad cultural y simbólica.

La advertencia de Darcy Ribeiro sobre el riesgo de que el hombre latinoamericano se vuelva «desarraigado» refleja un dilema real: la pérdida de referentes identitarios frente a la globalización. Su texto, al retomarlo, propone una revalorización de la imaginación como categoría política, lo cual es tanto histórico como actual —basta recordar las recientes movilizaciones culturales, indígenas y medioambientales en el continente—.

La sección que contrapone la apertura latinoamericana a la xenofobia europea utiliza una estrategia de contraste que, aunque estilísticamente eficaz, es más metafórica que sociológica. Es verosímil en el plano simbólico —la hospitalidad, el sincretismo y el «espíritu festivo» son rasgos destacados de nuestras culturas—, pero corre el riesgo de incurrir en una idealización benévola del continente. América Latina también alberga violencia, prejuicios internos, exclusiones y profundas desigualdades históricas.

Sin embargo, el autor no niega estas heridas, solo elige exaltar lo que en ellas resiste como fuerza vital. La idealización es, aquí, una estrategia retórica, no ingenuidad: el autor crea un contrapunto poético para reafirmar el valor humanista latinoamericano frente al vaciamiento global. El pasaje final —«la utopía es la llama que impide que América sea solo un mercado»— sintetiza una tesis históricamente lúcida: la cultura latinoamericana (arte, literatura, religiosidad, oralidad) ha sido el verdadero espacio de resistencia civilizatoria.

Incluso cuando la política fracasa, el arte y el imaginario mantienen viva la idea de humanidad. Esta interpretación encuentra respaldo en las obras de: Octavio Paz, en El laberinto de la soledad, al ver a México como un país que «baila ante el abismo»; Mario Vargas Llosa, quien, aunque crítico con las utopías políticas, reconoce en la ficción latinoamericana el poder de inventar mundos posibles; Darcy Ribeiro, para quien América Latina es «la nueva Roma del mundo mestizo».

En resumen, el texto es intelectualmente apropiado para el contexto latinoamericano porque: reconstruye un arco histórico coherente, desde la liberación política hasta las resistencias culturales contemporáneas. Reivindica la imaginación como herramienta política, en consonancia con las pedagogías y filosofías del continente. Evita el eurocentrismo, proponiendo una inversión de perspectiva: es América Latina, no Europa, la que guarda el sentido humano de la civilización. Adopta un lenguaje simbólico y ensayístico, que es, en sí mismo, parte de la tradición estética latinoamericana. Si hay alguna fragilidad, esta reside únicamente en la idealización benévola del «pueblo alegre y plural», lo que debe leerse no como un error factual, sino como una licencia poética dentro de un texto que asume el lugar de la utopía como método y metáfora.

El texto combina lucidez crítica y lirismo histórico: piensa en el continente con el corazón y lo siente con el intelecto. Es una meditación civilizatoria que reencanta la idea de América, devolviéndole lo que la modernidad intentó extirpar: la creencia de que soñar es un acto político.

El presente archivo constituye una colaboración de carácter analítico y reflexivo entre el texto base de Pedro M. Mastrobuono y la lectura crítica de Ana Maria Bernardelli. La propuesta nace del reconocimiento de que, como latinoamericanos, compartimos cuestiones históricas, culturales y éticas comunes, que exigen una continua problematización. Así, el documento se configura como un ejercicio de interlocución intelectual, en el que el análisis no se limita a la exégesis del texto, sino que se expande en un diálogo interpretativo sobre temas que atraviesan el pensamiento latinoamericano contemporáneo. Se trata, por lo tanto, de un esfuerzo conjunto por pensar y repensar la condición latinoamericana, reafirmando la relevancia de la crítica como espacio de construcción de sentido e integración cultural.

Sobre Nosotros

Alejandro Seta

No soy más que el vagón de un tren que en la década del sesenta se tambaleaba, llegando, sobre ese río a orillas de la ciudad de Necochea. Los primeros acordes de la música de Piazzola me vuelve a llevar a quién soy. Las palabras de mi abuela Sara, un libro encontrado por azar, Cris, la escritura tambaleante, mis hijos, el descubrimiento de Dios.

Acerca de Mí

Tenemos un grupo de WhatsApp!